Por Cândida de Oliveira
O escândalo que gerou inúmeras manchetes na mídia e se tornou assunto político de interesse nacional, no último mês, comprova, mais uma vez, a degradação da atividade exercida no âmbito da estrutura parlamentar e na própria conduta de parlamentares. O uso descomedido e indiscriminado de passagens áreas, em cotas que variavam de R$ 5 mil a R$ 33 mil, remetendo ao pagamento de viagens de lazer e turismo, quando não destinadas a familiares e amigos, e ainda a suspeita de fraude e mercado ilegal dessas cotas, indigna o povo brasileiro, que se sente roubado e desrespeitado. Além de sustentarmos altíssimos salários para quem se diz representante do povo, temos de aceitar que esses execráveis políticos continuem exercendo seus mandatos nas instituições que deveriam priorizar assuntos de interesse coletivo/público.
Os números são de causar revolta. Entre janeiro e outubro de 2008, conforme publicação no site Congresso em Foco, 261 deputados usaram a cota da passagem aérea em viagens ao exterior, sendo que a atividade política de um deputado ou senador não requer esse tipo de viagem. Mas a soma chega a 1.885 voos internacionais, dos quais, só a Câmara pagou R$ 4,765 milhões. É uma afronta para com o povo brasileiro que trabalha a cada dia para poder ter um salário, cabe salientar, muito inferior ao que recebe um senador ou um deputado. Muitos trabalhadores, aliás, não possuem recursos para custear atividades de lazer, que dirá viagens ao exterior!
Como observamos, não são poucos os parlamentares que utilizaram o dinheiro público em benefício próprio. O próprio e atual presidente da Câmara, deputado Michel Temer, admitiu o uso da cota para fazer passeio turístico na Bahia, com familiares e amigos. Sua argumentação, divulgada em nota à imprensa, para justificar o mau uso das passagens da Câmara é tão desprezível quanto o próprio parlamentar. Para Temer, “o crédito [gerado pelo acúmulo mensal da cota] era parlamentar, inexistindo regras claras definindo o limite de sua utilização”. Quanta prepotência e subestimação da capacidade de compreensão crítica do povo brasileiro. Esse é, sem dúvida, um dos parlamentares indignos da confiança do povo. Mas o pior é a minimização das denúncias sobre o assunto, que inclusive foi apresentada pelo próprio Temer através de suas declarações falsas, tratando o fato como um equívoco do legislativo que corresponderia a atividades ilícitas por apenas 12, 13 parlamentares.
A aceitação de tais declarações causa vergonha, vergonha de ter que suportar que esses ditos “representantes” permaneçam exercendo seus mandatos na Câmara e Senado. Ora vejam, não é que no final das contas o referido parlamentar saiu pela tangente com sua “teatralização” na defesa do projeto que prevê a redução e limitação no uso de cotas de passagens, depois que o caso ganhou repercussão. E falo em teatralização, por que, a meu ver, é o que parece, uma encenação, visto que foi ele próprio quem assinou o Ato 42, da Mesa Diretora, de 2000, durante sua primeira gestão na Câmara, instituindo a cota de passagens e abrindo caminho para o uso do benefício por terceiros, inclusive em viagens internacionais. Até quando, afinal, vamos fechar os olhos permitindo que esses parlamentares corruptos continuem exercendo poder político sobre nós, cidadãos brasileiros? Para começar, não podemos aceitar que essas atitudes desmoralizantes sejam tratadas de forma minimizadora e banal. Precisamos reagir contra políticas que beneficiem apenas os que estão no poder e fazer valer os interesses coletivos.
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